domingo, 16 de janeiro de 2011

VIÚVAS E VIÚVOS O QUE ELES PRECISAM? COMO VOCÊ PODE AJUDAR?

Uma viúva de luto
Sob a luz fraca da cozinha de seu pequeno apartamento, Jeanne põe a mesa de forma mecânica. Afinal, ela precisa comer alguma coisa. De repente, olha para os dois pratos à sua frente . . . e cai em prantos. Por força do hábito, ela pôs a mesa para dois. Faz dois anos que seu querido marido faleceu.

VIÚVAS E VIÚVOS O QUE ELES PRECISAM? COMO VOCÊ PODE AJUDAR?

PARA quem nunca passou por isso, é impossível entender como é grande a dor causada pela perda do cônjuge. De fato, a mente humana demora para aceitar essa terrível realidade. Beryl, de 72 anos, não conseguia aceitar a morte repentina de seu marido. “Parecia mentira”, diz ela. “Eu não podia acreditar que ele não entraria mais por aquela porta.”

Depois de uma amputação, alguns às vezes sentem que ainda têm aquela parte do corpo. De forma similar, pessoas enlutadas às vezes “veem” seu cônjuge amado no meio de uma multidão, ou percebem que estão falando para o cônjuge que já não está mais ali.

Amigos e familiares muitas vezes não sabem como reagir diante desse sofrimento. Conhece alguém que perdeu o cônjuge na morte? Como você pode dar apoio? O que precisa saber para ajudar viúvas e viúvos a lidar com essa dor? Como você pode ajudar os enlutados a recuperar aos poucos o gosto pela vida?

Coisas a evitar

Amigos e familiares preocupados e com boas intenções talvez tentem diminuir o tempo do processo de luto da pessoa. No entanto, um pesquisador que fez um estudo com 700 viúvas e viúvos escreveu: “Não existe um período ‘certo’ para o luto.” Assim, em vez de tentar fazer com que a pessoa não chore, dê tempo para ela expressar sua dor. — Gênesis 37:34, 35; Jó 10:1.

Embora seja apropriado ajudar a cuidar de formalidades relacionadas ao funeral, você não precisa assumir o controle de todos os assuntos. Paul, um viúvo de 49 anos, comenta: “Aqueles que me ajudaram de forma prática, mesmo assim deixaram que eu tivesse controle dos assuntos. Achei isso muito bom. Para mim foi muito importante cuidar de que tudo corresse bem no funeral de minha esposa. Foi a última coisa que eu pude fazer por ela.”

Naturalmente, é bom receber alguma ajuda. Eileen, uma viúva de 68 anos, diz: “Visto que eu não conseguia pensar direito, era difícil tomar as providências para o funeral e tratar de toda a documentação. Felizmente, meu filho e minha nora me ajudaram bastante.”

Além disso, não tenha receio de falar sobre a pessoa querida que faleceu. Beryl, já mencionada, lembra: “Meus amigos me deram bastante apoio. Mas percebi que muitos evitavam falar sobre meu marido, John. Era como se ele nunca tivesse existido, e isso me deixava um pouco magoada.” Com o tempo, as viúvas e os viúvos talvez desejem falar abertamente sobre o cônjuge. 

Você se lembra de um gesto bondoso ou de uma história engraçada sobre a pessoa que morreu? Então, fale isso para o cônjuge dela; não fique com receio. Caso sinta que seu comentário será bem-vindo, diga o que você gostava na pessoa ou do que sente falta. Isso talvez ajude cônjuges enlutados a ver que outros compartilham sua dor. — Romanos 12:15.

Ao tentar ajudar, evite sufocar a pessoa com conselhos. Não a force a tomar decisões rápido demais.* Seja discernidor e pense: ‘Que coisas positivas eu posso fazer para ajudar um amigo ou parente que está passando por uma das mudanças mais difíceis na vida?’

Amigos verdadeiros se mantêm à disposição e continuam a dar apoio

O que você pode fazer

Nos primeiros dias, é provável que a pessoa enlutada aceite ajuda prática. Será que você pode fazer companhia para ela, preparar refeições ou hospedar parentes?

Também é bom lembrar que os homens e as mulheres lidam com o luto e a solidão de maneira diferente. Por exemplo, em algumas partes do mundo, mais da metade dos viúvos casa de novo em menos de um ano e meio depois da morte da esposa — o que dificilmente acontece no caso das mulheres. Por que essa diferença?

Ao contrário do que se pensa, os homens não casam de novo simplesmente para satisfazer suas necessidades físicas ou sexuais. O fato é que os homens tendem a ter somente a esposa como confidente, e talvez seja isso que os arrasta para uma profunda solidão depois que ela morre. As viúvas, por seu lado, são mais capazes de encontrar apoio emocional, apesar de às vezes serem esquecidas pelos amigos do marido. Isso em parte explica por que muitos viúvos talvez achem que um segundo casamento é a única maneira de vencer a solidão — mesmo correndo o risco de se envolverem precipitadamente num novo relacionamento. Assim, é possível que as viúvas consigam lidar melhor com as dores da solidão.

Independentemente de seu amigo ou parente ser homem ou mulher, o que você pode fazer para aliviar o peso da solidão? Helen, uma viúva de 49 anos, diz: “Muitos têm boas intenções, mas não tomam a iniciativa. É comum dizerem: ‘Se eu puder ajudar em alguma coisa, me avise.’ Mas gostei quando alguns disseram: ‘Vou fazer compras. Quer vir comigo?’” Paul, cuja esposa morreu de câncer, explica por que gostou de ser convidado para sair um pouco: “Às vezes, você não tem vontade de estar com outras pessoas ou de falar sobre sua situação. Mas depois de passar algum tempo com amigos, você se sente muito melhor e não tão só. Vê que as pessoas realmente se importam, e isso torna as coisas mais fáceis.”#

Uma viúva fazendo compras com amigas
Lembre-se de convidá-los para sair

Quando mais se precisa de empatia

Helen se deu conta de que o momento em que mais precisou de apoio emocional foi quando a maioria dos parentes já tinha voltado para a sua rotina. Ela diz: “Os amigos e familiares ajudam no início. Depois a vida deles volta ao normal, mas a sua não.” Tendo isso em mente, amigos verdadeiros mantêm-se à disposição e continuam a dar apoio.

Talvez uma viúva ou um viúvo precisem mais de companhia em dias específicos como o aniversário de casamento ou a data da morte do cônjuge. Eileen, já mencionada, disse que seu filho adulto procura preencher o vazio que ela sente em seu aniversário de casamento: “Todo ano, nesse dia, meu filho Kevin me leva para sair e depois vamos a um restaurante. Fica uma coisa entre mãe e filho.” O que acha de anotar essas datas mais difíceis para um familiar ou amigo viúvo? Daí, você ou outros podem programar alguma atividade com a pessoa naquele dia difícil. — Provérbios 17:17.

Uma família conversando ao telefone com uma viúva 

Será que há datas específicas em que sua ajuda seria especialmente bem-vinda?

Alguns acham consolador falar com alguém que passou pela mesma situação. Annie, viúva há oito anos, disse o seguinte sobre como sua amizade com outra viúva foi de ajuda: “A determinação dela me impressionou muito e me incentivou a ir em frente.”

Realmente, depois de superar os estágios iniciais do luto, as viúvas e os viúvos podem se tornar exemplos para outros e uma fonte de esperança. Duas viúvas mencionadas na Bíblia, a jovem Rute e sua sogra Noemi, se beneficiaram da ajuda que deram uma à outra. Esse relato comovente descreve como o interesse mútuo dessas mulheres as ajudou a aliviar a dor e a lidar com a sua situação desafiadora. — Rute 1:15-17; 3:1; 4:14, 15.

Tempo para curar

Para voltar a ter gosto pela vida, quem é viúvo precisa encontrar o equilíbrio certo entre preservar a memória da pessoa que amava e cuidar de suas próprias necessidades. O sábio Rei Salomão reconheceu que há um “tempo para chorar”. Mas ele também disse que há um “tempo para curar”. — Eclesiastes 3:3, 4.

Paul, já mencionado, ilustra como é difícil não viver do passado: “Eu e minha esposa éramos como duas árvores que cresceram entrelaçadas. Mas depois uma delas morreu e foi removida, deixando a outra com a aparência deformada. Era estranho estar sozinho.” A lealdade ao cônjuge falecido faz com que alguns se recusem a deixar o passado para trás. Outros acham que se divertir um pouco seria uma traição, por isso se recusam a sair ou conhecer outras pessoas. Como ajudar de maneira suave as viúvas e os viúvos em seu processo de cura, ou seja, a seguir em frente com sua vida?

Um passo inicial pode ser ajudar a pessoa a expressar seus sentimentos. Herbert, viúvo há seis anos, diz: “Para mim foi muito importante quando as pessoas que me visitavam ficavam sentadas, escutando enquanto eu lembrava alguma coisa do passado ou mencionava alguma coisa que me preocupava no momento. Sei que nem sempre fui a melhor companhia, mas apreciava sua empatia.” Paul ficou sensibilizado especialmente com um amigo mais velho que sempre tomava a iniciativa de perguntar como ele estava se sentindo. Paul diz: “Gostava da sua maneira sincera e tranquila de falar comigo e muitas vezes eu acabava expressando meus sentimentos.” — Provérbios 18:24.

Ao expressar sentimentos conflitantes como remorso, culpa ou raiva, a pessoa enlutada dá um passo decisivo para aceitar sua nova situação. No caso do Rei Davi, foi depois de derramar seu coração perante o melhor confidente, Jeová Deus, que ele conseguiu reunir forças para se ‘levantar’ e aceitar a triste realidade da morte de seu filho. — 2 Samuel 12:19-23.

1. Amigos ajudando um viúvo; 2. Uma família e um viúvo fazendo uma caminhada

Inclua aqueles que são viúvos em seus momentos de descontração e atividades diárias
Apesar de no começo ser difícil, com o tempo, a viúva, ou o viúvo, precisa voltar a ter uma rotina diária. Será que você pode incluir essa pessoa em alguma de suas atividades, como fazer compras ou uma caminhada? Talvez possa pedir que ela ajude em alguma tarefa. Essa é outra maneira de tirar a pessoa do isolamento. Por exemplo, ela pode tomar conta das crianças ou mostrar como preparar um prato especial que sabe fazer. No caso de um viúvo, talvez ele possa ajudar a fazer algum conserto na casa. Além de serem atividades estimulantes, essas iniciativas mostram à pessoa que a vida dela tem sentido.

Por se abrir mais com outros, a pessoa enlutada pode aos poucos voltar a ter gosto pela vida e até estabelecer novas metas. Foi isso o que aconteceu no caso de Yonette, uma viúva de 44 anos que também é mãe. Ela recorda: “Voltar a ter uma rotina foi tão difícil! Cuidar da casa, das finanças e de três filhos foi realmente um desafio.” Mas com o tempo, Yonette aprendeu a se organizar e a se comunicar melhor com os filhos. Ela também aprendeu a aceitar a ajuda de amigos achegados.

Uma caixa de jóias

Guardar ou não guardar?

“Guardei muitas coisas pessoais de meu marido”, diz Helen, viúva apenas há alguns anos. “Parece que à medida que o tempo passa, esses objetos me trazem mais boas lembranças. Na época não quis me desfazer de nada porque com o tempo os sentimentos podem mudar bastante.”

Em contraste, Claude, que perdeu sua esposa há mais de cinco anos, diz: “No meu caso, não preciso ficar rodeado pelas coisas que eram de minha esposa para não esquecer dela. Acho que o fato de ter me desfeito dessas coisas me ajudou a aceitar a realidade e tornou a fase do luto menos sofrida.”
Essas frases mostram que as pessoas podem tomar decisões bem diferentes sobre a questão de guardar ou não as coisas do cônjuge falecido. Por isso, amigos e familiares sensatos evitarão impor seu ponto de vista. — Gálatas 6:25.

“A vida ainda é uma dádiva preciosa”

Para que a ajuda dada seja eficaz, amigos e familiares precisam ser realistas. Por meses e até anos, a recuperação e o estado de espírito da pessoa viúva pode alternar entre períodos de relativa serenidade e crises de depressão. Sem dúvida, “a praga do seu próprio coração” pode ser bem difícil. — 1 Reis 8:38, 39.

É durante os períodos difíceis que a pessoa talvez precise de um pequeno empurrão na direção certa para não perder contato com a realidade nem se entregar ao isolamento. Isso tem ajudado muitas viúvas e viúvos a dar um novo rumo à sua vida. Claude, um viúvo de 60 anos e hoje um evangelizador por tempo integral na África, diz: “A vida ainda é uma dádiva preciosa, mesmo depois que alguém passa pela dor terrível de perder o cônjuge.”

É verdade que a vida nunca é a mesma depois da morte da pessoa amada. Mas aqueles que vão em frente com a sua vida ainda têm muito para dar. — Eclesiastes 11:7, 8.


*  Veja o quadro “Guardar ou não guardar?
#  Para mais sugestões sobre como dar ajuda prática à pessoa enlutada, veja a brochura Quando Morre Alguém Que Amamos, páginas 20-25, publicada pelas Testemunhas de Jeová.


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